
As histórias das proibições dos cassinos, do jogo do bicho e o Rio de Janeiro
Publicado em: 01-04-2025As proibições dos cassinos e do jogo do bicho se cruzam em uma quadra da nossa história. Essas memórias, você vai conhecer um pouco melhor agora. Começando pelos cassinos do Rio de Janeiro.
A história dos cassinos no Brasil e no Rio de Janeiro remonta desde a época do Brasil Império. No entanto, nesse momento histórico, era tudo menos glamoroso e espetacular. O auge mesmo se deu nos anos 1930 e 1940.
“Os cassinos se consagraram no Brasil não apenas pela oferta de jogos de azar, mas também pela exibição de espetáculos e orquestras”, destaca o site História Digital.
Contudo, antes desse auge, em 1917, durante a presidência de Venceslau Brás, a prática foi proibida pela primeira vez em todo o território nacional. Os cassinos fecharam, causando um primeiro impacto negativo na economia.
Em 1934, todavia, os cassinos foram regulamentados pelo então presidente Getúlio Vargas e, então, viveu-se um auge nos doze anos seguintes. Na época, existiam cerca de setenta cassinos em todo o país, em sua maioria localizados em grandes hotéis, reunindo empresários, famosos, políticos e até celebridades internacionais.
Não eram só os jogos, os cassinos eram famosos, também, pela exibição de grandes espetáculos musicais. Impulsionados pela expansão do momento maior do rádio no Brasil, os principais artistas nacionais apresentavam-se nos maiores cassinos do Rio de Janeiro.
Entre as décadas de 1930 e 1940, a capital da república, Rio de Janeiro, tinha os dois principais cassinos do país. O Cassino da Urca e do Copacabana Palace.
O da Urca era o mais badalado e servia de palco para shows de artistas como Carmen Miranda, Emilinha Borba e Grande Otelo. O Cassino da Urca tinha alguns diferenciais, como um serviço de barcos que ficavam à disposição para transportar pessoas para o Cassino de Icaraí, em Niterói.
Foto: O Rio que vivi
O Cassino do Copacabana Palace era maior e mais luxuoso, e também recebia grandes espetáculos com muita gente famosa presente, como, por exemplo, Albert Einstein, Frank Sinatra e Santos Dumont. O Cassino de Copa tinha uma infraestrutura melhor do que a da maioria dos cassinos da Europa da época e recebeu o título de melhor casa de espetáculos da América do Sul.
Copacabana Palace. Fonte: Archtrends
“O auge dos cassinos no Brasil terminou em 1946, quando o recém-eleito presidente Eurico Gaspar Dutra estabeleceu a proibição dos jogos de azar em todo o país por meio do Decreto-Lei nº 9.215. Especula-se que o militar cedeu às pressões de sua esposa, Carmela Teles Leite Dutra, uma católica fervorosa”, destaca o portal Cassinoorg.
A proibição está em vigor até os dias de hoje.
E o bicho?
A história do jogo do bicho no Rio de Janeiro teve início em 1892. Foi quando Barão de Drumond criou uma loteria privada para ajudar a financiar o Jardim Zoológico de Vila Isabel. A pessoa pagava o ingresso para ver os animais e ganhava um bilhete com a imagem de algum deles. No final do dia tinha um sorteio, com prêmios, mostrando o bicho que deu.
Barão de Drumond
A primeira proibição formal do jogo do bicho foi em 1895. Nos anos que seguiram à criação, o jogo foi para além do jardim zoológico. A popularização descontrolada despertou preocupações das autoridades municipais, que passaram a enxergar a prática como uma ameaça à moralidade pública e à ordem urbana
Com a proibição, o Jardim Zoológico da Vila Isabel entrou em declínio. Por outro lado, o jogo do bicho seguiu vivo. A atividade se reorganizou fora do alcance direto do poder público. Virou uma prática clandestina, operada por uma rede de “banqueiros” e sustentada pela adesão popular.
O antigo bilhete do Zoológico de Vila Isabel. Reprodução /Rio de Antigamente
Chegou o século XX e o jogo do bicho corria solto pelo Rio de Janeiro. O jogo, a população (sobretudo a mais pobre), a polícia e o poder público no Rio passaram a se tolerar, mas com eventuais conflitos, repressões e casos de corrupção.
O jogo era ilegal, de acordo com a lei, mas era muito popular e se reinventava a cada tentativa de repressão por parte do Poder Público. Com isso, tudo seguia na normalidade. Pouca gente havia sido criminalizada por conta do jogo do bicho até então.
Mas o decreto de 1946, citando anteriormente na matéria, que proibiu os jogos de azar no Brasil, mudou as coisas. As regras foram para todo o país. Mas o Rio de Janeiro, capital do país à época, foi o mais impactado.
Os maiores cassinos do Brasil ficavam no Rio de Janeiro. O jogo do bicho, que depois se espalhou por todo o território nacional, ainda era predominante em terras fluminenses. A maior repressão e as consequências e respostas se deram no Rio.
Depois desse decreto, o jogo do bicho foi forçado a se deslocar definitivamente para a clandestinidade. Não havia mais a certa convivência harmônica com o Poder Público. Mais gente passou a ser presa pela prática e quem era dono das bancas começou a agir com violência, formando assim uma grande teia de crimes que se expandiu nas décadas seguintes.
Nesse período, alguns banqueiros do bicho viraram os caras fortes de birros e regiões do Rio de Janeiro. O primeiro deles foi Aniceto Moscoso, bicheiro português que controlava o jogo em Madureira e Irajá.
Com o golpe militar de 1964 e a ditadura no Brasil, o jogo do bicho passou a ser monitorado pelos mesmos órgãos responsáveis pela repressão política. No entanto, a atividade não desapareceu. Mais uma vez o jogo se reinventou para ficar vivo.
Nas décadas seguintes, os bicheiros mais famosos passaram a influenciar diretamente no Carnaval e no futebol, duas paixões nacionais. Bancaram escolas e clubes para lavar a imagem de criminosos. Além de inúmeras doações e apoios que faziam às pessoas mais pobres.
Alguns desses líderes chegaram a ser presos. Depois soltos. E esse ciclo se repetiu (e segue se repetindo). Mas o jogo é ilegal, proibido. Ou será que Zeca Pagodinho está certo?